sexta-feira, 23 de maio de 2008

No tram da vida

Ontem de manhã minha experiência na metrópole de Haia me deixou com um gostinho amargo na boca. Lá vou eu entrando no Tram (bonde ou veículo leve sobre trilhos) e me esqueci que a minha Strippenkaart (uma espécie de cartão que a gente compra com antecedência e carimba ao entrar nos meios de transportes públicos) já estava toda gasta. Quem bom que eu tenho 20 euros, pensei eu, senão iria ter que dar uma paleta até a estação de trem.

Ledo engano. O motorista não só não aceitou meus 20 euros como não teve a menor paciência de esperar eu contar os meus trocados pra saber se juntando todas as moedas espalhadas na minha bolsa enorme chegava aos 1 euro e 60 centavos que eu precisava pagar pra chegar até a estação.

Eu tinha 1 euro e 45 centavos. Ele queria que eu descesse do Tram. Meu argumento de que eu tinha que ir trabalhar não fez nem ele piscar. Ele me disse que eu tinha que tentar o próximo Tram ou ônibus pra ver se ele tinha trocado.

História boba essa, né? Eu não achei quando estava nessa situação. Ainda mais que não dá pra descrever aqui o tom utilizado pelo motorista mal-educado, somente citar que foi bastante desagradável.

E todo mundo ao redor? Essa é a melhor parte. As pessoas também não piscaram. Fingiram que não era com elas. Aliás, não era com elas mesmo, né? Eu pensei, que mundo é esse? Todo mundo vira as costas pra não ver, e de propósito. Seguem a máxima (individualista): cada um por si e nenhum Deus por todo mundo.

Bem, nem todo mundo. Uma senhora, que não parecia das mais abastadas, me ofereceu o que estava faltando pra eu não ter que ser obrigada (era bem capaz do motorista chamar a polícia) a descer do Tram.

Lição do dia: nem todo mundo ignora o próximo, ou ainda, há pessoas que ainda conseguem enxergar o próximo.

O que me intrigou mais foi que, passando a régua, eu fiquei mais irritada com o comportamento do motorista grosseiro e das pessoas indiferentes (de tão tolerantes que são) que isso abafou a minha satisfação em encontrar alguém disposta a dar - simplesmente. A pergunta é: por quê? Com certeza alguma necessidade minha não atendida... um caso mais para um terapeuta do que para um blog.

Mas e as outras pessoas? As indiferentes? Quais são as necessidades delas não atendidas que as levam a se comportar dessa maneira? Não deve ser medo de ficar 15 centavos mais pobre, né?

***

Eu fico imaginando, essa minha história não é absolutamente nada comparada com outras tantas histórias de outras tantas pessoas necessitadas de verdade, que de tanto serem ignoradas já quase não existem mais.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Resistência palestina não violenta

Um outro Lordelo, dessa vez do site Nanotec Distribuidora, me chamou atenção para um artigo do Le Monde Diplomatique intitulado "Por uma nova resistência", no qual Ignácio Ramonet entrevista Mustafá Barghouti, líder da Iniciativa Nacional Palestina - uma movimento palestino não-fundamentalista e pela não-violência.

Abaixo, trechos da entrevista conduzida por Ignácio Ramonet:


A Iniciativa Nacional Palestina representa uma solução, uma alternativa, à Autoridade Palestina?

Não só à Autoridade. Pensamos que a Palestina carece, sim, de uma alternativa. Mas que não seja fundamentalista. Propomos uma alternativa não-fundamentalista. E somos pela não-violência. Mas não nos opomos à resistência. Porque a resistência, de um povo que vive sob ocupação é legítima, reconhecida e autorizada também pelo Direito internacional, desde que não faça vítimas entre os civis.

A Iniciativa Nacional Palestina prega a resistência não-violenta?

Sim. Nossa idéia é a resistência não-violenta, de massas. Penso, por exemplo, na primeira Intifada ou “a guerra das pedradas”, iniciada em dezembro de 1987, que salvou a OLP do desastre. É um bom exemplo de resistência não-violenta, de massas.

Se tivéssemos podido concluir as negociações com Israel naquele momento, sem desperdiçar os resultados da primeira Intifada [que durou até setembro de 1993], não teria havido Oslo, e teríamos uma paz sustentável. Mas os israelenses optaram por assinar aqueles acordos com uma liderança da OLP que, naquele momento, estava enfraquecida.

Hoje, a maioria dos palestinos está decepcionada, reduzida a uma escolha binária: ou o Fatah, subserviente e corrupto, ou o Hamás, religioso fundamentalista. A Iniciativa Nacional Palestina constitui uma alternativa, para conduzir a resistência.

O senhor acredita que a resistência não-violenta seja opção realista?

Temos de entender bem. Partimos de uma estratégia de quatro faces: 1) fomentar a resistência não-violenta, de massas; 2) ajudar a população a resistir, estimulando as forças de cada um e ajudando na vida diária; 3) buscar apoio em forte movimento de solidariedade internacional, como o que houve contra o apartheid na África do Sul; e 4) sob liderança unificada.

O fracasso do mundo árabe é conseqüência de não haver um único regime realmente democrático. Politicamente desprezados e socialmente empobrecidos, os cidadãos voltam-se ao fundamentalismo religioso.

Quais são suas chances de sucesso?


O futuro depende de nossa capacidade para convencer os palestinos quanto à eficácia de nossa estratégia de quatro pontos, de que já falamos. Além disto, temos uma agenda social. Exigimos respeito ao Estado de direito, aos direitos ligados à cidadania, aos direitos das mulheres, das crianças, dos portadores de deficiências, aos direitos sociais. Em resumo, respeito integral aos direitos humanos. E entendemos que esta agenda social deve estar diretamente articulada à nossa agenda política.

Que fórmula política o senhor preconiza, para pôr fim a este conflito interminável?

Somos pela solução dos dois Estados, que nos parece a melhor. É o modo mais fácil de pôr fim a tantos sofrimentos. Mas não sei se esta solução ainda é viável. Porque, para implementar a solução dos dois Estados, Israel tem de demolir o Muro do apartheid, parar definitivamente a colonização e demolir os prédios dos colonos — o que jamais fez. E prossegue a colonização, selvagem ou autorizada. Continuam a construir prédios e a colonização, na verdade, está avançando. Entre 1993 e 2006, o número de colonos mais que duplicou. São mais de 230 mil em Jerusalém Leste e mais de 250 mil na Cisjordânia. Já são 25% da população da Cisjordânia e ocupam mais de 40% de nosso território. Se isto continuar, não se pode prever o que acontecerá. O que posso garantir é que os palestinos jamais aceitarão que os convertam em alguma espécie de escravos de um bantustão.

Em meio a tanta violência, por que o senhor ainda aposta na não-violência? Seu projeto não lhe parece um pouco utópico?

Muita gente diz que Israel só entende o idioma da força. Neste sentido, Israel comporta-se como todas as demais potências coloniais. Nenhum Estado colonialista jamais entendeu por que os colonizados queriam vê-lo pelas costas. Aconteceu, por exemplo, com o Estado francês na Argélia, com o Estado inglês na Índia, no Quênia, no Iêmen.

Mas para mim, não há só a força militar. Foi a força da não-violência que pôs fim ao colonialismo na Índia e ao regime racista do apartheid na África do Sul.
Se conseguirmos mobilizar uma maioria de cidadãos palestinos, a favor da idéia de uma resistência de massa, não-violenta, creio que começaremos a ter paz nesta região. Uma paz justa para os dois lados, fundada em justiça e democracia. E que nos leve a uma prosperidade partilhada.


Para ler a entrevista toda, clique aqui.

domingo, 18 de maio de 2008

Criança tem que poder ser criança

Lordelo do blog semreligiao me chamou atenção para a blogagem coletiva contra a erotização da criança. É hoje o dia. Eu fiquei pensando: Sim, de fato é muito importante tematizar essa questão, mas não devemos esquecer que essa deve ser uma luta de todos os dias.

A mídia combinada com a sociedade de consumo em que vivemos exercem uma grande influência nos nossos modos e costumes - e nos dos nossos filhos. É aquela música com a dança sexual que a sua filha de 4 anos sabe "de cor e salteado"; é a roupa apertadinha, a saia curta, o cabelo assim ou assado; é a maquiagem da Xuxa ou da Angélica (ou da Sandy?); são os beijos lascivos em plena novela das 6.

Sem nenhum tipo de moralismo (cada qual que decida sua própria moral), mas eu acredito que esse conjunto de fatores rouba a infância da criança. A criança não é mais criança, aliás, nem mais feliz ela é (porque a felicidade fica acoplada ao que você assiste, ao que você consome - nem todo mundo pode consumir tudo o que "é preciso" para ser feliz, logo...).

Criança tem que ser tratada com respeito; tem que ser tratada como um adulto que tratamos com respeito. Devem ser respeitados seus desejos, mas principalmente sua liberdade de desejar. Eu já me explico:

Quem não se dedica a uma criança, não tem tempo pra ela, não pode lhe ouvir e utiliza a babá eletrônica (dizem ser das mais eficientes - estou falando da televisão, pra quem não entendeu a sutileza), não permite que a criança tenha desejos próprios, simples, e sim que assuma para si, e como seu, desejos impostos por essa mesma sociedade que quer que a gente consuma, consuma, consuma.

Eu admito que mesmo que alguém seja um pai esforçado e amoroso, não vai poder controlar toda a influência externa recebida pelo seu filho (aliás, eu nem acredito que isso seria desejável). No entanto, dedicando tempo, muita paciência, carinho e diálogo ao seu filho, é possível libertar a criança das rédias de uma "adultice" precoce - possivelmente causada por essas influências externas inevitáveis (ou pelo menos indiretamente causada).

Alguns vão querer me apedrejar pelo que eu vou dizer agora, mas eu vou dizer assim mesmo, pois pedra virtual não dói: eu acho que quem não respeita seu filho, não merecia tê-lo.

Numa conversa virtual com uma amiga minha sobre a liberação do sexo num parque em Amsterdam (depois de eu ter lhe dito que por mim tudo bem, se eles querem liberar que liberem, desde que ninguém seja forçado a fazer o que não quer...) ela me perguntou:

Agora mata uma curiosidade... Tá, as pessoas podem fazer isso nos parques porque é natural, as crianças podem ver porque também é natural, mas a partir de quando você pensa em dizer pra sua filha que ela pode repetir a cena porque também é natural? E, se é tão natural, por que ter limite de idade pra comecar (como recomendam os psicólogos)? Isso caberia bem naquela pergunta da minha filha aos 9 anos (se menina nessa idade não tem menstruação e menino não pode engravidar, por que eles não podem transar?). E aí?

Para o seu choque, eu lhe respondi:

Eu responderia a sua filha: do ponto de vista moral não há nada que impeça que crianças transem, mas não há necessidade alguma de se adiantar um processo da natureza, pois o natural é o sexo com o amadurecimento dos orgãos sexuais. Mas nem tudo que é natural é bom. A morte tambem é natural e a gente tenta evitá-la, as doenças também, etc... ser natural não significa ser bom, bem como ser cultural ou normativo também não. Então, eu não acho que as pessoas possam fazer nos parques PORQUE É NATURAL, pra mim pessoalmente não há problema porque eu não vejo nada demais no sexo nem tenho problema algum quanto a ele. As pessoas estarão satifazendo uma necessidade delas, fine! Quanto às crianças, será que é uma necessidade delas o sexo? É delas ou é imposta de fora (seja lá de que forma)? Ou porque elas viram e querem fazer também?

Eu discutirei tudo isso com Nina (pode escrever em pedra! - aliás, pior que em pedra é publicar na web como agora!) e não proibirei NADA. Mesmo porque proibir é o pior método de todos. Eu vou buscar fazer como meu pai fez: Quando eu tinha 14 anos, de brincadeira de escola eu bafei uma camisinha de meu colega e escondi na minha mochila. Terminei esquecendo e viajei no final de semana. Minha mãe descobriu a camisinha e ficou chateada (provavelmente se sentindo traída, a última a saber, hehehe), meu pai só me disse: eu acho ótimo a idéia da camisinha. É importante usar camisinha mesmo. Mas é também importante que você sinta que saiba o que está fazendo e não deixe ninguém lhe machucar, nem física nem emocionalmente. Quando você se sentir preparada para tanto, vá em frente. Eu achei esse conselho o máximo (meu pai provavelmente nem sabe disso), e continuo achando.

A minha tentativa, portanto, vai ser a de transmitir a minha filha liberdade com responsabilidade. Fazer ela aprender isso o menos forçado possível. E sempre discutindo, dialogando, considerando suas idéias e evitando toda e qualquer forma de imposição e de moralismo.

É desse respeito que eu estou falando. De não passar por cima das idéias, dos desejos, dos questionamentos de um adolescente. Por outro lado, uma criança de 5 anos não é uma criança de 10 (muito menos adolescente). Existem enormes nuances e diferenças. Um exemplo que eu acho esclarecedor: Não seria justo deixarmos uma criança de 3 anos decidir se vai pular do 9o andar do prédio, mas não precisamos esbofeteá-la todos os dias para que ela nem pense em chegar perto da janela. Já uma criança de 10 anos tem muito mais discernimento, é possível um diálogo em outras bases, de outro nível e com outro alcance.

Isso tudo aplicado à erotização, eu chego à conclusão que criança pequena tem que ser criança pequena e cabe aos pais dar-lhe condições de ser criança pequena sem precisar ser criança pequena erotizada. Criança grande tem que ser respeitada tanto quanto à pequena, o diferencial é que o nível de diálogo tem que ser maior. É como eu escrevi acima: dedicação de tempo, paciência, carinho e diálogo ao seu filho fazem a diferença.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Boi da cara preta

Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta

Outro dia eu recebi um email que criticava músicas infantis violentas, algumas das quais permearam a minha infância, como a do boi da cara preta ou da cuca vem pegar:

Nana neném que
A cuca vem pegar
Mamãe foi pra feira e
Papai foi trabalhar

Eu me lembro de discutir com o Movimento Negro em Salvador que o boi da cara preta não era uma música racista - e continuo achando isso. Só faltava agora não se poder mais falar da COR preta (ou branca, ou amarela, ou qualquer que seja) nem lhe associar um atributo dentro de um contexto. Mas quem pode negar que essa canção é uma canção que ameaça? (Nenhuma criança quer ser pega seja por boi preto ou branco).

E quanto à cuca? Ou a criança dorme ou a feia da cuca vem pegar? O que é isso? Sou só eu que enxergo o absurdo dessa "canção de ninar"? E o pior, ainda tem sérias questões de gênero a serem resolvidas aí: quer dizer então que o papel da mamãe é o de ir pra feira e o do papai de ir trabalhar? Lembrem-me: em que século estamos mesmo?

A do pau no gato a gente nunca cantou aqui em casa. Eu não tenho cara de contar pra a Nina que atirei o pau no gato, mesmo ele não tendo morrido por conta disso. Eu hein? E se um dia ela me perguntasse por que eu atirei o pau no gato? (E o pior, e se ela não me perguntasse nada? - Dessensibilização total! Mission acomplished!).

Agora um exagero do autor desse email que eu recebi foi colocar a música do cravo e da rosa no meio do bolo. Eu não vejo coisa demais nessa daí não (só coisa de menos ;-)), pois não ameaça a criança (apesar de quê, músicas infantis não precisam ter brigas como tema) nem a incitam a nada:

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despetalada

O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo deu um gemido
E a rosa pôs-se a chorar

Brigas existem, infelizmente. De fato não precisam terminar em feridas nem em "despetalamentos", muito menos devem ser resolvidas à base da "porrada". O que deixa um gostinho meio amargo na boca ao final desta canção é toda e qualquer associação que a criança possa fazer entre o choro da rosa e um sentimento de culpa da parte desta. Sentimento de culpa? Tô fora! E essa bandeira a gente deve apertar na mão dos nossos filhos com força.

A do soldado eu canto, e ainda ensinei à Nina:

Marcha soldado
Cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso no quartel

O quartel pegou fogo
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional

Ah, dêem licença, por favor, pra ser soldado só com cabeça de papel mesmo (ainda mais de capacete azul pra ficar só espiando de soslaio enquanto indefesos são massacrados). Se você é soldado porque quer, tanto pior: " selber Schuld", em bom alemão (culpa sua - lá vem a danada da culpa de novo!). Eu evito preconceitos, mas em se tratando de exército fica meio difícil deixar de associar o que quer que seja de negativo (ainda mais tendo em vista a história do Brasil... apesar do quê, depois do filme da Maria de Medeiros - Capitães de abril - a coisa deu uma aliviada, nem todo japonês é igual).

E pra concluir, outro dia eu estava ouvindo um cd com Nina e a canção era:

A canoa virou
Quem deixou ela virar
Foi por causa da Maria
Que não soube remar

Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar
Eu tirava a Maria
Lá do fundo do mar

Logo no início (na primeira vez que ouvimos), eu cantei como Nina (foi por causa da Nina, etc...), mas quando chegou ao final eu quase chorei e óbvio me recusei de cantar o final com o nome da Nina. Que negócio é esse de "eu tirava a Nina lá do fundo do mar"? NÃO! Não tem nem graça cantar uma música dessas com o nome da minha pequena!!! DE-TES-TEI! Sem falar na culpa atribuída à pobre da Maria por ter deixado a canoa virar. Xiii, de novo a culpa. Culpa: tô fora! Vamos mentalizar isso, quem sabe um dia entra nas nossas cabeças nem que seja por osmose.