Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta
Outro dia eu recebi um email que criticava músicas infantis violentas, algumas das quais permearam a minha infância, como a do boi da cara preta ou da cuca vem pegar:
Nana neném que
A cuca vem pegar
Mamãe foi pra feira e
Papai foi trabalhar
Eu me lembro de discutir com o Movimento Negro em Salvador que o boi da cara preta não era uma música racista - e continuo achando isso. Só faltava agora não se poder mais falar da COR preta (ou branca, ou amarela, ou qualquer que seja) nem lhe associar um atributo dentro de um contexto. Mas quem pode negar que essa canção é uma canção que ameaça? (Nenhuma criança quer ser pega seja por boi preto ou branco).
E quanto à cuca? Ou a criança dorme ou a feia da cuca vem pegar? O que é isso? Sou só eu que enxergo o absurdo dessa "canção de ninar"? E o pior, ainda tem sérias questões de gênero a serem resolvidas aí: quer dizer então que o papel da mamãe é o de ir pra feira e o do papai de ir trabalhar? Lembrem-me: em que século estamos mesmo?
A do pau no gato a gente nunca cantou aqui em casa. Eu não tenho cara de contar pra a Nina que atirei o pau no gato, mesmo ele não tendo morrido por conta disso. Eu hein? E se um dia ela me perguntasse por que eu atirei o pau no gato? (E o pior, e se ela não me perguntasse nada? - Dessensibilização total! Mission acomplished!).
Agora um exagero do autor desse email que eu recebi foi colocar a música do cravo e da rosa no meio do bolo. Eu não vejo coisa demais nessa daí não (só coisa de menos ;-)), pois não ameaça a criança (apesar de quê, músicas infantis não precisam ter brigas como tema) nem a incitam a nada:
O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despetalada
O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo deu um gemido
E a rosa pôs-se a chorar
Brigas existem, infelizmente. De fato não precisam terminar em feridas nem em "despetalamentos", muito menos devem ser resolvidas à base da "porrada". O que deixa um gostinho meio amargo na boca ao final desta canção é toda e qualquer associação que a criança possa fazer entre o choro da rosa e um sentimento de culpa da parte desta. Sentimento de culpa? Tô fora! E essa bandeira a gente deve apertar na mão dos nossos filhos com força.
A do soldado eu canto, e ainda ensinei à Nina:
Marcha soldado
Cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso no quartel
O quartel pegou fogo
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional
Ah, dêem licença, por favor, pra ser soldado só com cabeça de papel mesmo (ainda mais de capacete azul pra ficar só espiando de soslaio enquanto indefesos são massacrados). Se você é soldado porque quer, tanto pior: " selber Schuld", em bom alemão (culpa sua - lá vem a danada da culpa de novo!). Eu evito preconceitos, mas em se tratando de exército fica meio difícil deixar de associar o que quer que seja de negativo (ainda mais tendo em vista a história do Brasil... apesar do quê, depois do filme da Maria de Medeiros - Capitães de abril - a coisa deu uma aliviada, nem todo japonês é igual).
E pra concluir, outro dia eu estava ouvindo um cd com Nina e a canção era:
A canoa virou
Quem deixou ela virar
Foi por causa da Maria
Que não soube remar
Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta
Outro dia eu recebi um email que criticava músicas infantis violentas, algumas das quais permearam a minha infância, como a do boi da cara preta ou da cuca vem pegar:
Nana neném que
A cuca vem pegar
Mamãe foi pra feira e
Papai foi trabalhar
Eu me lembro de discutir com o Movimento Negro em Salvador que o boi da cara preta não era uma música racista - e continuo achando isso. Só faltava agora não se poder mais falar da COR preta (ou branca, ou amarela, ou qualquer que seja) nem lhe associar um atributo dentro de um contexto. Mas quem pode negar que essa canção é uma canção que ameaça? (Nenhuma criança quer ser pega seja por boi preto ou branco).
E quanto à cuca? Ou a criança dorme ou a feia da cuca vem pegar? O que é isso? Sou só eu que enxergo o absurdo dessa "canção de ninar"? E o pior, ainda tem sérias questões de gênero a serem resolvidas aí: quer dizer então que o papel da mamãe é o de ir pra feira e o do papai de ir trabalhar? Lembrem-me: em que século estamos mesmo?
A do pau no gato a gente nunca cantou aqui em casa. Eu não tenho cara de contar pra a Nina que atirei o pau no gato, mesmo ele não tendo morrido por conta disso. Eu hein? E se um dia ela me perguntasse por que eu atirei o pau no gato? (E o pior, e se ela não me perguntasse nada? - Dessensibilização total! Mission acomplished!).
Agora um exagero do autor desse email que eu recebi foi colocar a música do cravo e da rosa no meio do bolo. Eu não vejo coisa demais nessa daí não (só coisa de menos ;-)), pois não ameaça a criança (apesar de quê, músicas infantis não precisam ter brigas como tema) nem a incitam a nada:
O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despetalada
O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo deu um gemido
E a rosa pôs-se a chorar
Brigas existem, infelizmente. De fato não precisam terminar em feridas nem em "despetalamentos", muito menos devem ser resolvidas à base da "porrada". O que deixa um gostinho meio amargo na boca ao final desta canção é toda e qualquer associação que a criança possa fazer entre o choro da rosa e um sentimento de culpa da parte desta. Sentimento de culpa? Tô fora! E essa bandeira a gente deve apertar na mão dos nossos filhos com força.
A do soldado eu canto, e ainda ensinei à Nina:
Marcha soldado
Cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso no quartel
O quartel pegou fogo
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional
Ah, dêem licença, por favor, pra ser soldado só com cabeça de papel mesmo (ainda mais de capacete azul pra ficar só espiando de soslaio enquanto indefesos são massacrados). Se você é soldado porque quer, tanto pior: " selber Schuld", em bom alemão (culpa sua - lá vem a danada da culpa de novo!). Eu evito preconceitos, mas em se tratando de exército fica meio difícil deixar de associar o que quer que seja de negativo (ainda mais tendo em vista a história do Brasil... apesar do quê, depois do filme da Maria de Medeiros - Capitães de abril - a coisa deu uma aliviada, nem todo japonês é igual).
E pra concluir, outro dia eu estava ouvindo um cd com Nina e a canção era:
A canoa virou
Quem deixou ela virar
Foi por causa da Maria
Que não soube remar
Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar
Eu tirava a Maria
Lá do fundo do mar
Logo no início (na primeira vez que ouvimos), eu cantei como Nina (foi por causa da Nina, etc...), mas quando chegou ao final eu quase chorei e óbvio me recusei de cantar o final com o nome da Nina. Que negócio é esse de "eu tirava a Nina lá do fundo do mar"? NÃO! Não tem nem graça cantar uma música dessas com o nome da minha pequena!!! DE-TES-TEI! Sem falar na culpa atribuída à pobre da Maria por ter deixado a canoa virar. Xiii, de novo a culpa. Culpa: tô fora! Vamos mentalizar isso, quem sabe um dia entra nas nossas cabeças nem que seja por osmose.
Lá do fundo do mar
Logo no início (na primeira vez que ouvimos), eu cantei como Nina (foi por causa da Nina, etc...), mas quando chegou ao final eu quase chorei e óbvio me recusei de cantar o final com o nome da Nina. Que negócio é esse de "eu tirava a Nina lá do fundo do mar"? NÃO! Não tem nem graça cantar uma música dessas com o nome da minha pequena!!! DE-TES-TEI! Sem falar na culpa atribuída à pobre da Maria por ter deixado a canoa virar. Xiii, de novo a culpa. Culpa: tô fora! Vamos mentalizar isso, quem sabe um dia entra nas nossas cabeças nem que seja por osmose.







Um comentário:
Oi, Dai!
Menina, finalmente consegui dar uma lida em todos os posts. Vou começar comentando aqui. Como você, cresci ouvindo essas cantigas e não me tornei uma pessoa "pior" por causa delas; na verdade, enquanto criança, elas não passavam do que são - cantigas. Cante as músicas para Nina, sem medo de ser feliz. Essas teorias São uma grande bobagem do século 21, uma frivolidade absurda que não contribui efetivamente para que tenhamos um mundo melhor, com pessoas menos violentas. Aliás, desde que começaram a dissecar "tudo", o mundo parece bem pior do que antes. Pais modernos perderam a autoconfiança e aquela dose de autoridade que o filho precisa para se fortalecer. Muita conversa, pouco sentido: estamos diante de uma geração de inseguros, de pessoas nervosas e atormentadas por dúvidas incessantes. Uma coisa é a princípio uma coisa, e a ela se segue, em primeiro lugar, um ponto, como dizia minha velha instrutora alemã...
Leia Hellinger, leia a matéria da Stern da última semana de maio sobre a educação moderna. Eu li e, com os olhos de quem está de fora, conclui: é isto mesmo!
Beijos!
Nil
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