quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Encontro inusitado

Hoje eu conheci uma menina na metade dos seus vinte anos que me deu uma lição de não violência. Ela me deixou sem fala. E para aqueles que me conhecem, isso não é tão simples assim de se conseguir.

Essa menina não teve uma vida facil. Ela cresceu num orfanato até os 12, quando foi adotada. Aliás, não foi adoção, na verdade, ela foi morar com “tutores” – um casal que se responsabilizou (ou deveria ter se responsabilizado) pela sua criação, managing o pacote completo de suas necessidades. (Sim, Clodo, tenha calma, em breve estaremos iniciando o debate acirradíssimo sobre o que são as nossas necessidades).

O que poderia ter sido não foi. Aliás, pode-se dizer que foi por água abaixo. Pelo menos do que se pode dizer do resto da sua infância e adolescência.

Eu sei que vocês estão ávidos por detalhes, provavelmente faz parte da natureza humana, porquanto das nossas necessidades, entrar nos pormenores da vida dos outros. Mas eu não sei de detalhe nenhum. Como poderia, tendo conhecido esta menina hoje? Por mais simpática que eu seja, ninguém despeja o balde de merda da sua vida nos seus ouvidos nos primeiros 30 minutos de conversa! E, sinceramente, eu não lhes diria nada dos pormenores, mesmo se soubesse. Afinal, isso teria sido confiado a mim e não a vocês. Portanto, nada de detalhes.

O resumo da história são conclusões minhas: essa menina não deve ter tido nenhuma vida fácil. E, vamos colocar as palavras em termos bem cuidadosos: deve ter sofrido algum tipo de violência, continuada ou não por parte desses “tutores”.

Ora, violência contra qualquer pessoa me revolta (sim, Marshall, um dia eu chego lá, eu sei, esse não é o caminho, blábláblá, mas ainda estou engatinhando, portanto, considere pelo menos o fato de eu estar sendo sincera). Sim, e além de me revoltar me faz querer justiça (como boa advogada que sou, era, serei – whatever). E lá fui eu na minha inocência(?), raiva, indignação e um pouco de empatia por aquela “vítima” sugerir-lhe que tomasse as providências cabíveis. Afinal, vivemos num Estado de Direito, onde funciona instâncias capazes de lidar com “esses” casos, como a polícia, por exemplo.

Como se não bastasse o meu atrevimento de entrar assim na sua semana sem pedir licença, recebi uma que me valeu algumas horas de reflexão e este post: “sim, eu pensei muito em fazer isso. Também fui aconselhada por outras pessoas a fazê-lo. Mas de quê adianta? O que isso vai acrescentar a minha vida? Isso não vai me fazer feliz ou menos infeliz. Também não vai apagar o passado e o mais importante, não vai me dar nenhum futuro.”

Provavelmente seria exagero dizer que o contato com a “comunicação não violenta” mudou a minha vida, é um divisor de águas para mim, etc e tal. Mas eu posso lhes dizer com muita sinceridade que se não tivesse tido este contato e refletido bastante a respeito, a minha primeira reação teria sido a de tentar convencê-la de que ela não pode deixar “barato” coisas ruins que outras pessoas lhe fizeram. Porém, a minha reação foi o silêncio. Um silêncio envergonhado e respeitoso por estar diante de alguém sem praticamente nenhuma educação formal, que me dava uma lição muito mais profunda (sem perder a simplicidade) do que eu poderia ter obtido das mãos dos catedráticos.

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