Final de semana passado aconteceu uma coisa interessante. Eu já tinha observado isso em Nina e, inclusive, em outras crianças, mas dessa vez foi mais forte, mais claro. E, dessa vez, eu refleti a respeito.
Eu descia a escada da minha casa e Nina me esperava ao final dela. Tropecei e raspei (literalmente e brutalmente) o pé na beirada da escada. A meia não ajudou em nada na contenção da dor. Foi uma dor desgraçada e eu espontaneamente demonstrei com todos os ais e uis possíveis (e me contendo para não utilizar outras expressões mais cabíveis à ocasião) a tal dor. Pois não foi que Nina começou a chorar?
Eu confesso que parei de chorar imediatamente. Fiz das tripas coração (oh expressão infeliz!) e fingi que estava tudo bem.
O interessante é que eu me lembro de ter vivido uma situação semelhante no começo do ano 2000 quando minha mãe estava no hospital, dessa vez no papel de filha. Ela voltou de uma cirurgia e estava sentindo muita dor. Percebendo isso, eu comecei a chorar. Eu tinha 23 anos! E minha mãe, que não era de primeira viagem, nem tinha um bebezinho a sua frente, fingiu que estava tudo bem.
Pois sim, aí é que está o problema, no fingimento. Foi a minha amiga Susie que me chamou atenção para isso. A gente tem uma tendência (materna? natural?) a não querer que os nossos filhos sofram e somos capazes até de fingir para isso.
Mas será que fingir que está tudo bem é o mais apropriado? Parando pra pensar no assunto eu me surpreendi com as minhas próprias reflexões. Não, no fundo eu não acho que fingir seja a melhor alternativa. Diz o ditado que mentir e coçar é só começar. E quanto a fingir? Você finge que está tudo bem; finge que é feliz; finge que tem dinheiro; finge que trabalha; finge que se diverte; finge que faz regime; finge que ama; finge que tem orgasmo... não, definitivamente, fingir não é a melhor opção. Aliás, nem pra quem finge, nem pra quem recebe o fingimento. Vejamos.
Eu – a fingida – não posso simplesmente colocar pra fora a minha dor porque quero proteger a minha filha de sentir uma dor por tabela. E finjo. Ela, por sua vez, não sabe como receber essa mensagem. Como assim, doeu, depois não doeu mais? Mas eu vi a queda, e deve ter doído mesmo. Que reação estranha é essa? Imagino esse tipo de especulação se passando na cabeça do meu bebê, se esse tipo de especulação na cabeça de um bebê fosse possível. Mas, não sabendo o que é possível ou não, o que eu sei é que ela não é boba, capta muito mais do que imaginamos e que as impressões ficam. Primeiro a impressão da queda, da dor, da careta, depois a impressão do sorriso forçado, da não dor, da cantoria desafinadíssima usada como disfarce infeliz... tudo isso para não permitir que meu bebê chorasse.
Mas, afinal, por que não chorar? Poxa, ela só estava sendo solidária! Ela demonstrou uma capacidade de empatia enorme, creio eu, ao começar a chorar. É como se ela estivesse me dizendo: eu sei, eu vi, eu me solidarizo com você, e, por fim, eu externo isso pra você porque eu me importo com você!
Que maravilha! E eu estraguei tudo com a minha pretensão de fazer tudo perfeito, de evitar a todo custo qualquer sofrimento para ela.







Um comentário:
Oi Dai
Perfeita esta sua reflexão. Também estou de acordo que fingir nao contribui positivamnete em nada, mesmo quando se quer esconder de outros(desconhecidos).
Beijo
Clodo
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